O AMOR NA PAUSA
"A vida pulsa no
intervalo"
(Marco Aurélio Baggio)
Este texto é
oferecido para quem tem mais de 40 anos.
Isso significa que
já cumpriu a "Viagem do herói": as conquistas - identidade, status, estrutura,
virilidade, os castelos e os dragões. E está buscando um novo tempo. Você está na
PAUSA. Definimos como PAUSA aquele momento da vida em que já não é preciso mais estar
preocupado com a aprovação dos pais e nem a dos filhos. Em que já se é maduro o
suficiente para exercer sua autoridade dignamente e ser ouvido por todos - pais e filhos.
O momento em que se caminha para a sabedoria. O projeto dos vinte anos está cumprido e um
novo projeto se faz necessário. A pausa é muito preciosa porque contém todas as
possibilidades. É um hiato, um intervalo entre dois tempos - e a vida pulsa é no
intervalo.
Antigamente eu
pensava que a natureza havia sido injusta com as mulheres ao impedi-las de adiar o
projeto-filhos para mais tarde na vida. Mas eu é que fui injusta com a natureza. O
projeto-filhos tem mesmo que ser cumprido cedo, porque é preciso muita energia para
cuidar de bebês e crianças pequenas. Depois dos quarenta, a gente precisa de mais
sossego, porque a energia muda. Então é preciso estar livre para viver um outro tipo de
criação. A geratividade é o cerne da mulher. Ela precisa gerar e parir suas criações.
Múltiplas, variadas e essenciais. Ela quer ganhar o mundo.
O homem, que cumpriu
seu caminho de lutas e conquistas, quer voltar ao lar: Ulisses e Penélope. Não sei
quantos de vocês usaram este modelo: o homem sair para as conquistas e a mulher ficar em
casa esperando o seu retorno. E tecendo enquanto isso. No mito, com a demora do retorno de
Ulisses, os interessados em suas terras queriam que Penélope o desse por morto e se
casasse de novo. Mas Penélope dizia que só se casaria novamente quando acabasse de tecer
sua manta. Assim, tecia de dia e desmanchava de noite. Isso garantia sua espera. A mulher,
a natureza feminina, tem esse viés: tecer, fazer as tramas, ligar os fios, juntar os
elementos. E ela fia seus sonhos, seus pensamentos, no seu silêncio. E os destece sempre.
Para tecer de novo. E se Ulisses, o masculino, vai à luta, faz conquistas, vence
inimigos, ao final, ele quer ter para onde retornar. E Penélope é quem garante que
haverá um lugar ao qual retornar.
Mas, e se todos nós,
homens e mulheres atuais, no exercício do nosso masculino, partirmos nas viagens das
conquistas, quem irá tecer a manta que acolhe / protege no regresso? Quem irá garantir o
fogo, o lugar do retorno? Quem será nossa Penélope?
Então Ulisses,
cansado da vastidão solitária do mundo, retorna à sua casa. O primeiro a reconhecê-lo
é seu cão: o cheiro a gente nunca esquece. E há de ser o cheiro que exerce o
indescritível fascínio da atração. Entra em nós antes que tenhamos consciência. Não
dá para ficar casado sem gostar do cheiro um do outro. E, lavado de seus ferimentos, ele
reencontra a doçura, o repouso. A comida quente, o fogo aceso. A alma sorri de
contentamento. Ôh, Ulisses, porque você está sempre partindo? Quantas aventuras você
ainda enfrentará? Acontece que, depois dos quarenta / cinqüenta anos, já não é tão
vital partir em novas viagens, e o masculino quer aquietar-se. Quer estar aqui para falar
de amor, de namorar, de melhorar a sexualidade...
É tempo mesmo.
Vocês sabiam que, a partir dos trinta e cinco anos de idade, o fígado "general do
corpo" começa a enfraquecer em suas funções, tornando-se menos eficaz em eliminar
os excessos? (isso explica porque as ressacas e a digestão vão piorando). O homem,
então, começa a acumular o hormônio feminino (estrogênio) que deveria ser excretado. O
hormônio feminino é produzido pelo homem desde o feto, bem como o masculino. Só que,
por volta dos cinqüenta anos, ele quase não é eliminado mais e o hormônio masculino
vai sendo cada vez menos produzido. Resultado: as características de agressividade e
competitividade vão se atenuando e um novo jeito de sentir acontece para os homens.
Que maravilha a
sabedoria da natureza! Mulheres mais livres, mais soltas, mais donas e íntimas de seu
corpo, sem as pressões da maternidade, junto a homens mais sensíveis, mais lentos, mais
delicados. É dessa possibilidade de parceria perfeita que vocês podem usufruir. E eu
espero que vocês tenham consciência de bem usá-la.
Sei que a curiosidade
sobre a "passagem" masculina deve ter sido despertada. Então, cabem alguns
esclarecimentos. Entre quarenta e cinqüenta e cinco anos de idade, 15% dos homens
apresentam TODOS os sintomas de andropausa. A grande maioria apresenta alguns apenas. Os
sintomas mais comuns são: fadiga matinal, lassidão e dores vagas. São freqüentes:
nervosismo, irritabilidade, instabilidade emocional, depressão, choro, insônia. Costumam
temer o infarto por apresentar tonteiras, calafrios, suor, dores de cabeça, formigamento,
palpitações. Os sintomas, aliados a esse jeito novo / desconhecido de sentir, geram
ansiedade que, por sua vez, faz variar mais ainda o nível de testosterona. Fato é que,
quanto mais inseguro os homens, mais significativas as alterações.
A potência
masculina, a virilidade, não é função direta da quantidade de hormônio masculino. Os
seus aspectos mais primitivos sim. Noventa por cento dos casos de impotência masculina,
segundo Masters e Johnson, "resultam de uma destrutiva combinação de ignorância
com ansiedade sexual masculina". A questão é quanto valor se depositou na ereção
e em seus aspectos simbólicos. A ereção é apenas UM aspecto da sexualidade que resulta
na ejaculação, na maioria das vezes. Mas não dá para reduzir a sexualidade a três ou
quatro fortes contrações para expelir o sêmen. Seria empobrecer uma das maiores fontes
de prazer que a vida humana pode ter. e o prazer alimenta a vitalidade, a saúde e a
criatividade (e vice-versa).
Sexualidade envolve
boca, pele, cheiros, secreções, visão, tato, audição, paladar. É um exercício de
requinte. E como todo requinte, exige tempo, exige dedicação. A diferença do namoro
para o casamento é que os namorados sempre se preparam para se encontrar. Banham-se,
perfumam-se, enfeitam a casa, põem boa música, servem bom vinho, petiscos. Acendem
velas. Criam o clima. E, na rotina do casamento, corre-se o risco de deixar a sexualidade
também ser arrastada como obrigações maritais. Obrigação e prazer raramente ocupam o
mesmo espaço.
Enfim, gente
consciente e saudável só tem que parar para investir em ser sexualmente feliz. Como diz
Lya Luft, "não há idade para ser belo, amoroso ou sensual". Aliás, as
parcerias de longa duração têm a seu favor toda a cumplicidade, a intimidade, a
confiança que permite uma entrega muito maior. Que tal retraçar o mapa da sensibilidade
corporal um do outro, brincando de pesquisadores? E contar as fantasias? E tentar
vivê-las? É tempo de soltar as amarras. Não tem mais pais, filhos. É homem e mulher no
saudável exercício de viver o prazer de estar vivo.
Ou o que vocês acham
que é aquele calorão da menopausa? Aquilo é fogo. É o fogo do corpo que quer sair. No
mito, Tyrésias, que havia sido condenado a viver sete anos como mulher, ao voltar a ser
homem, revela que a mulher conhece nove das dez partes do prazer. Soltar esse fogo só faz
reacender o amor.
No tempo da
maturidade, a viagem é a do sábio. A mitologia diz que sábio é aquele que conhece a
luz e a sombra. E quem conhece luz / sombra está fazendo o trânsito entre o céu e a
terra. Nesse trânsito, a espiritualidade é aquela força que produz em cada um uma
transformação interior. Está em nível da experiência diária. E o amor é a grande
força de transformação da existência humana.
Vocês nunca
estiveram tão prontos e plenos para o amor. Vocês já têm a maturidade de se saberem
homens / mulheres, masculinos / femininos ao mesmo tempo. Vocês já ultrapassaram EROS /
PSIQUE, o único mito de final feliz. Vocês já viveram Ulisses e Penélope. Agora é
recriar a própria história. É tornar concreta a primeira tentativa da história da
humanidade de ter e manter um casamento por amor. Amor a si mesmo, ao parceiro, ao projeto
construído, ao próximo projeto, ao sonho, às lembranças e esperanças partilhadas.
Amor é força de
união. Quando dois seres se unem na força de seu encontro, eles se tornam divinos, pois
podem inclusive gerar outra vida. Juntos, por um momento, são Deus. Mas, ao viver a
separatividade, descobrem-se capazes de um amor maior: amar é pactuar com a experiência
absoluta da limitação um do outro. Não existe amor sem conhecer o objeto de amor.
Conhecê-lo é compartilhar da vivência da vida. A intimidade é revelar-se totalmente
para o outro - eu só me revelo se eu mesmo me sei, me aceito e me gosto. O amor não é
um jogo de ceder - é juntar, somar, multiplicar. Amar é uma experiência que demora
muito. O amor é saber, não é poder. É saber conservar o parceiro, o sentimento. O
feminino é o fluxo vital que mantém o compromisso com o sentimento, com a fidelidade a
ele. O masculino a descobre e toma como valor ao ser tocado pelo feminino dentro de si. É
o feminino que ensina sexualidade para o homem ao introduzir a dimensão do sentir. O
masculino teme a fraqueza - mistura pênis com falos. Ao revelar-se na intimidade,
permitindo que a mulher a conheça, a aliança está feita. É pecado vital usar a
fraqueza do outro para fazer demonstrações de força.
Desde o início dos
tempos, o lugar das mulheres é o do cuidar. O cuidado é a única resposta possível para
a manutenção da vida - de cada um, do casal, do planeta Terra. O cuidado deverá ser o
consenso da humanidade para salvar o planeta. O cuidar é uma sabedoria do feminino. O
fazer, o produzir como modelo único, trouxe o desgaste. Retornem pois à sensibilidade -
ao outro, a si, à terra. E no cuidado, na delicadeza do dia-a-dia, resgatem a plenitude
do viver amorosamente.
Ternura e vigor fazem
a mudança. Determinação e sensibilidade são fio condutor. Masculino e feminino na
alegria de somar no amor.
Retirado de palestra
proferida pela
Dra. Ana Ester Nogueira Pinto
(no Retiro das Rosas,
em 14/setembro/2000)
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