SEPARAÇÃO: MORRER PARA RENASCER
"O amor, como
expressão da totalidade do feminino,
não é possível nas trevas, como mero processo inconsciente.
Um encontro autêntico com o outro envolve a consciência,
apesar da separação e do sofrimento."
(Junito Brandão)
Num conto de Clarice
Lispector, que li na minha fase de adolescência, havia um refrão que nunca esqueci:
"De que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem?" Me esqueci o nome
do conto mas, esta pergunta se faz presente em cada mergulho que faço nas profundezas da
alma humana. Ao longo desses mais de vinte anos, meus clientes me ensinam isso todos os
dias. A vida mostra que, para se comprender a profundidade das coisas, precisamos ir muito
além das aparências.
Quando penso sobre a
separação, é isso que me volta. Para compreender a extensão de suas implicações,
precisamos relembrar que, da Idade da Pedra até a Era Agrícola, o que representa 1
milhão e 490 mil anos, a humanidade viveu uma experiência de matriarcado.
Como se desconhecia a participação do homem na reprodução da espécie, a mulher era
reverenciada como a autoridade, a legisladora, governando o grupo familiar e o social.
Depois, com a compreensão da paternidade e com a importância de ser dono de terras na
Era Agrícola, todas as relações mudaram e o patriarcado passou a ser o
regime dominante nos últimos 10 mil anos da história da humanidade. Tanto o matriarcado
como o patriarcado, enquanto relações senhoriais, evidentemente
deixaram registros de dominação/submissão que são sempre lesivos à idéia de
liberdade, igualdade e fraternidade entre mulheres e homens. Retomo estas questões para
dizer que, a nível de inconsciente coletivo, podemos supor um rancor
profundamente entranhado do feminino em relação ao masculino, e vice-versa. Se retorno
tão longe é por saber que, em processos de dor e perda, todas as velhas feridas costumam
se abrir e voltar a sangrar, ainda que muitas vezes, possamos desconhecer a extensão
delas.
Outra dimensão é a
do inconsciente individual. Todos nós, seres humanos, somos filhos ou filhas de alguém.
Isso nos deixa marcas profundas. Nossa constituição como pessoas é resultante das
raízes míticas do feminino e do masculino em nossas famílias de origem. O núcleo
familiar irá condicionar formas de relações entre homens e mulheres conforme suas
próprias formas de funcionamento. É extremamente comum que a linhagem ancestral feminina
(ou masculina) se repita nas crianças da geração atual remontando a, no mínimo, três
gerações. Todos os seus padrões costumam se repetir. É só pesquisar: procure saber
como seus avós lidavam um com o outro e com as questões do cotidiano da família...
Acrescente-se a isso, a dificuldade de sair da condição de filhos ou filhas, seja pela
autonomia financeira ou pela emocional. Nos interessa mais intimamente o aspecto
emocional.
A condição ingênua
e infantil, em sua essência, mantém em relação ao masculino e/ou feminino todos os
"rancores" de seus antepassados. Assim sendo, é freqüente identificarmos
elementos inconscientes contra os homens e/ou mulheres herdados dos pais.
O inconsciente é o
reino das sombras, do que não se pode ver. A consciência é o caminho de evolução do
humano. Resgatar essas parcelas do inconsciente coletivo, familiar e individual é que
permite, de fato, a liberdade e autonomia.
Quanto mais cedo um
casamento ocorre, quanto mais jovens as pessoas se envolvem, maior a possibilidade de
estabelecerem uma relação carregada de aspectos inconscientes. A imaturidade não
permite ver o outro como um ser diferenciado. Ele é visto como um reflexo dessas
projeções do inconsciente. Os jovens que se casam não questionam muito. Estão por
demais enebriados pela paixão, por conseguirem realizar aquilo que é considerado o
"destino homem-mulher", pela sensação de superar a solidão. Querem manter
suas vidas unidas, entrelaçadas a um outro.
O tempo tem por
função forçar a maturidade, apesar de nem sempre ser bem sucedido nesta tarefa. Com
frequência encontramos "crianças idosas". A mulher precisa abandonar seus
aspectos de inconsciente infantil e romper com a mãe como tal, além de renunciar ao
resquício matriarcal de ódio aos homens. O homem precisa superar seus aspectos
inconscientes infantis e "matar" o pai como tal, além de se libertar do
remanescente patriarcal de ódio às mulheres.
Ao perderem essas
"ïlusões", esses véus que impedem a clara visão, tanto o feminino quanto o
masculino têm que assumir seu próprio caminho. Experimentar a si mesmos
em relação a um parceiro, a um outro, não apenas para ter um parceiro.
Além da atração dos sexos e da necessidade de reprodução da espécie - fatores
instintuais que nos aproximam dos animais, essa consciência da maturidade provoca a
inclusão do amor, do encontro e da individuação nas relações dos casais.
Infelizmente, antes
deste maravilhoso momento acontecer, o mais comum é que já tenha havido um casamento e
uma separação. É a separação de um casal que costuma abrir o portal da separatividade,
do descobrir-se como um ser único e exclusivo que deverá transcender raízes
arquetípicas e familiares para cumprir seu destino de luz e clareza humana.
Uma separação é
sempre uma perda, uma morte. Mas é preciso sobretudo perder as ilusões infantis e
reintrojetar seu próprio masculino e feminino com partes da inteireza de seu ser. Não
está no outro. O outro não pode ser responsável pela nossa capacidade de existir, de
produzir, de criar, de amar. É fundamental viver o luto, principalmente o luto pelos seus
próprios aspectos infantis, pelos pais da infância, pelos sonhos de uma "vida
congelada no final feliz dos noivos se beijando no altar".
A separação, com
todo seu drama, ainda é geralmente o início da busca da própria individualidade e
grandeza de ser. A possibilidade de relações mais saudáveis, seja com o(a) ex, seja com
novos parceiros(as), depende da qualidade do luto vivido. Morte e renascimento são
também, neste caso, uma seqüência que mantém seu sentido de continuidade. Morrer em si
para renascer para o outro é o único caminho possível. Fora disso, os ex-parceiros
irão gastar seu tempo e energia tentando matar um ao outro, seja por maus-tratos, seja
por desqualificações. O ódio também é uma forma de manter-se vinculado a alguém
duradouramente. Para as pessoas que desconhecem as possibilidades da libertação do amor,
outros sentimentos podem fazê-las sentir-se menos sós e desamparadas. Mas,
paradoxalmente, é na mais profunda solidão do humano que ele se torna mais apto ao
encontro na dimensão do amor.
Dra. Ana Ester Nogueira
Pinto
(Janeiro/2003)
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