O CONSUMO COMPULSIVO
(palestra da Dra. Ana Ester Nogueira Pinto realizada em
11/março/2003 na SEMANA DO CONSUMIDOR organizada pelo PROCON de Belo Horizonte)
Gostaria de iniciar esta
conversa sobre consumo compulsivo por refletirmos que vivemos numa sociedade e numa época
consumista. Somos estimulados, durante todo o tempo, a consumir. As propagandas, cada vez
mais maravilhosas, induzem a sonhar que ter isto ou aquilo nos fará mais belos, mais
charmosos, mais bem-sucedidos e mais felizes. A seqüência infinita de atividades e
compromissos nos obriga a consumir tudo pronto para poupar tempo. Comprar o lanche na
padaria faz sobrar o tempo da caminhada ou da academia... E assim nos consumimos.
Fomos nós mesmos que
determinamos que temos que ser bons profissionais (uma média de 8 horas/dia), dar
atenção devida aos filhos e/ou companheiro(a) (2 a 3 horas/dia), cuidar bem do cotidiano
da casa (1 a 2 horas/dia), manter uma alimentação saudável (2 horas/dia), ter uma
atividade física regular (1 a 2 horas/dia), um curso de aperfeiçoamento ou hobby
(2 horas/dia) e, pelo menos, 8 horas de repouso. Neste ritmo, fora o tempo gasto no
trânsito, para fazer tudo com calma, o dia teria que ter mais de 26 horas. Então,
fazemos tudo correndo, depressa, sem usufruir direito, e tiramos do nosso sono, do nosso
tempo de alimentar, do nosso lazer, das relações de afeto para poder dar conta... Ou
seja, nos consumimos.
Logo, a primeira
reflexão que proponho é sobre como cada uma das pessoas se consome e, ao se consumir em
seu ritmo frenético, perde em tempo para refletir, avaliar e criticar suas reais
necessidades de consumo e o que as influencia. Esta me parece uma questão importante.
Cada um deve parar e pensar.
Muitos são os motivos
que levam uma pessoa a comprar: a necessidade, as carências, os modismos, o grupo de
convívio, a distração, o status, o apelo mercadológico, o marketing, ...
Os estudiosos sobre o
"Comportamento do Consumidor" afirmam que "os hábitos de consumo são mais
emocionais do que racionais".
O perfil do consumidor
no geral, hoje em dia, se enquadra mais na "compra por impulso".
Comprar por impulso é adquirir um bem por sentir uma atração instantânea pelo produto,
seja por causa da embalagem, do preço ou do apelo publicitário. São as "pequenas
loucuras", aquele algo a mais que se compra que não obedece a uma necessidade
estrita. E o mercado sempre tem algo novo a oferecer, que promete ser mais prático, mais
eficaz, mais rápido, mais etc.
O consumo compulsivo é
mais complicado. Neste caso, o efeito do ato de comprar é semelhante ao de tomar uma
droga. O comprador compulsivo acaba por consumir coisas pelo fato de consumir e não mais
pela necessidade ou utilidade do objeto consumido. O importante é comprar, não importa o
que. O comprador compulsivo é dependente do ato de comprar. Enquanto está comprando
sente alívio e prazer, superando momentaneamente seus sentimentos de angústia, vazio,
desprazer e tristeza. Como todo vício, tão logo passe o efeito, é preciso uma nova dose
para voltar a se sentir bem. Isso gera um círculo vicioso, pois, sente-se culpado pelos
seus excessos, mas não consegue controlar. E a frustração aumenta. E assim também, as
dívidas aumentam.
Toda compulsão está
sujeita às mesmas regras. O funcionamento mental do alcoólatra, do jogador compulsivo,
do compulsivo alimentar e do consumidor compulsivo é bastante semelhante. Eles tentam
aplacar um profundo sentimento de vazio e angústia. O compulsivo sempre busca preencher
um vazio interno, mas, só se libertará, se conseguir compreendê-lo dentro de sua
própria história pessoal.
Compulsão, assim como
compelir, é derivada do latim "compellere" que quer dizer
"aquilo que impele, que constrange". Por definição, toda compulsão é um tipo
de comportamento que o indivíduo é levado a realizar por uma força de coerção
interna. É um gesto ou um ato que ele se sente impelido a fazer, mesmo que saiba
ser inadequado ou prejudicial, mas está fora de seu controle. Por pior que possa parecer,
não realizar o ato compulsivo é sentido como mais ameaçador, como se a angústia fosse
se tornar intolerável a ponto de destruir o sujeito. É uma distorção do fenômeno dos
impulsos (pulsões). Nas pulsões, o impulso é realizado sob a forte pressão da
necessidade, tem caráter emocional e é vivido como adequado, provocando um alívio
duradouro. A compulsão é vivida como inadequada e o sujeito até se esforça para ir
contra ela, mas quase sempre perde. Isso gera sentimentos de culpa e deteriora a já
fragilizada auto-estima. O importante é compreender que se trata de um sintoma
e, como tal, denuncia uma doença.
O ato de comprar
indiscriminadamente é uma doença chamada oneomania.
A oneomania é um
distúrbio bastante controvertido do ponto de vista psiquiátrico e psicológico. Alguns
estudiosos a consideram como um transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Outros evidenciam
sua associação com os quadros bipolares (fase maníaca ou depressiva).
No Brasil, estima-se que
atinge 3% da população e é mais comum em mulheres (acomete quatro mulheres para cada
homem). A idade média do início da doença é aos 18 anos, mas usualmente, apenas 10
anos mais tarde é que se assume o comportamento como um problema que requer ajuda e
tratamento.
A oneomania é uma
doença sempre associada a transtornos de humor e ansiedade, além do descontrole dos
impulsos. Comumente, convive com dependência de substâncias psicoativas (álcool,
tóxicos ou medicamentos), transtornos alimentares (bulimia, anorexia) e sentimentos de
frustração, vazio e depressão.
A psicanálise explica a
dinâmica interna dos compulsivos. Na vivência de separação mãe-filho, que todo ser
humano tem que enfrentar, fica sempre registrado um sentimento de perda, de quebra de uma
unidade sentida como perfeita. Ali fica inscrito um vazio na existência de todas as
pessoas. Não se sabe exatamente porque, para algumas pessoas este momento fica
exageradamente marcado no psiquismo inconsciente. Podem ser questões bioquímicas que se
somam ao tipo de mãe e sua forma de viver e de educar, mas não se pode afirmar
conclusivamente. Fato é que esta angústia existente fica extremamente potencializada e
impele o sujeito a buscar se livrar dela, encontrando geralmente alívio nos
comportamentos compulsivos.
Especificamente, o ato
de comprar como que faria um remendo no "buraco" da auto-estima. Seria como se,
internamente, o sujeito sentisse não ter sido amado o suficiente por sua mãe (já que
ela não se manteve na díade com ele) e isso o deixasse para sempre com a sensação de
não ter atributos suficientes para ser amado por qualquer outra pessoa. Sendo assim ele
se "compensaria" agregando bens e valores materiais que "aumentassem"
a sua possibilidade de ser mais bem visto e, conseqüentemente, amado. Tudo isso
aconteceria ao nível de inconsciente profundo, sem chance do controle deliberado da
pessoa envolvida.
Por isso, é bastante
freqüente que as "crises" de consumo compulsivo sejam desencadeadas por
rompimento de namoro, perdas afetivas ou situações que estimulem o sentimento de
menos-valia (perder uma promoção ou o emprego, por exemplo). Os compradores compulsivos
racionalmente justificam seu ato com "eu mereço". É como se desculpassem pelo
excesso cometido, que sabem em algum nível ser problemático (ou porque gastaram muito
mais do que deviam ou porque sentem ser algo fora de seu controle). Reafirmar que merece
"presentes" pelo esforço feito, justificar uma autopremiação porque tiveram
um dia difícil ou por ter sido boa e compreensiva ou ter feito um bom trabalho...São
infinitas as justificativas para não ter que encarar e assumir que a situação está
fora do controle e requer intervenção profissional.
O desejo de possuir, de
ter coisas novas, de ter coisas que os outros não têm, empurram os compulsivos na
ilusão de que serão mais admirados, mais queridos por isso. Mas a solução é fugaz e
ineficiente, levando-o a uma pressão interna cada vez maior, a buscar incessantemente
possuir coisas novas, a ponto de que, se aliviar desta pressão, já é prazer, o que a
faz ser mantida. Então, começam a se endividar, a mentir, a usar cartões de crédito e
cheques pré-datados para adiar a consciência do que estão realmente fazendo. Quando se
dão conta da gravidade do problema, suas relações costumam estar todas já
comprometidas pelo abuso, pela falta de confiança, fora as complicações sociais e
econômicas graves. Estas pessoas vivem uma dicotomia interna: elas mesmas cometem os
atos, "comandadas por algo interno que está fora de seu controle" e são elas
mesmas que cavam suas punições. Como se o pai que as comandou na sua infância, agora
internalizado, não tivesse a força para impor os limites e fazer respeitar as regras,
mas mantivesse o seu caráter punitivo, já que suas vidas costumam se deteriorar.
Para a psicanálise, os
conflitos do passado arcaico (em relação ao par parental) quando recalcados
(inconscientes) procuram sempre "retornar" ao presente, para serem resolvidos.
Eles retornam sob a forma de sonhos, de sintomas, de atos compulsivos: "O que
permaneceu incompreendido retorna; como uma alma penada, não tem repouso até encontrar
resolução e libertação".
Tal resolução e
libertação exigem um processo psicoterapeutico. Dependendo da gravidade e dos outros
aspectos concomitantes, pode ser necessário o uso de antidepressivos e ansiolíticos, mas
deve-se considerar também a homeopatia que, quando bem praticada, muito ajuda na
libertação destes impulsos incontroláveis.
Desde 1967, existe nos
Estados Unidos o grupo dos Devedores Anônimos como uma rede de apoio e troca para os
compradores compulsivos. Em São Paulo, este grupo atua desde 1997. São encontros
semanais de 2 horas para ajuda e manutenção do esforço de combate à compulsão.
Envolve planejamento das despesas, discriminação entre o supérfluo e o essencial, uso
do dinheiro para pagamentos (proibição de cartões de crédito e cheques) e reforço do
grupo para não ceder aos estímulos de consumo e enfrentar o vazio interno sem
tamponá-lo com os produtos materiais.
Mas o fundamental é a
pessoa reconquistar seu amor por si mesma, se libertando das frustrações passadas com a
mãe não-amorosa e o pai incompetente que carrega dentro de si. A pessoa tem que
encontrar seu potencial de vida dentro do vazio que para sempre irá carregar, tomando
posse do SER ao invés do TER. E, aprendendo, enfim, que só podemos incluir o novo onde
há espaço. É justamente no vazio que se abre o espaço para criar.
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